Bruno Passamonti

Estudo aplicado · comportamento e estratégia

Cultura, influência
e consumo

Como aprendemos a reconhecer, desejar e confiar no que vemos? Essas perguntas aproximam meus estudos de cultura, percepção e escolhas de consumo.

Reúno nesta leitura a aplicação dos meus estudos às decisões de consumo. A pesquisa mais ampla sobre comportamento humano está em Contracampo, livro em escrita. As perguntas se encontram, mas o recorte aqui é o trabalho de marca.

O que percebemos antes de conseguir explicar

Um mesmo drink pode parecer diferente conforme o copo, o nome, o lugar e quem o recomenda. Isso me interessa porque a escolha não começa e termina no produto isolado. Há experiências anteriores, associações e expectativas participando daquele encontro.

A leitura começa por algumas perguntas. O que a pessoa reconhece? O que recorda? O que associa àquela imagem? O que diz que considera e o que faz quando precisa escolher? São perguntas diferentes, que pedem formas diferentes de observação.

Uma opção conhecida pede menos trabalho para ser reconhecida

Em Rápido e devagar, Daniel Kahneman reúne perguntas sobre processos rápidos de julgamento e formas mais deliberadas de pensar. Essa leitura me ajuda a investigar por que certas opções vêm à mente com facilidade. Sistema 1 e Sistema 2 são formas de descrever processos, não dois lugares separados no cérebro.

Levo essa pergunta para o bar. A pessoa encontra um nome conhecido no cardápio e já tem referências para interpretá-lo. Ela não precisa reconstruir toda a história da marca naquele momento. Na minha leitura, um trabalho coerente de branding e relações pode preparar esse reconhecimento e facilitar a entrada da marca entre as opções consideradas.

Essa aplicação ao on-trade é minha. A pergunta é quando a facilidade percebida ajuda a escolher e como ela se combina com a experiência anterior, a recomendação e as condições da ocasião. Kahneman · conferência Nobel.

Repetição, familiaridade e confiança

Robert Zajonc é uma referência para investigar a relação entre exposição repetida e preferência. Mera exposição não é outro nome para confiança: ela ajuda a estudar uma parte da aproximação com o familiar. A relação entre familiaridade, confiança e consumo precisa ser observada em seu contexto.

O que me interessa é como essa preparação se encontra com a cena do pedido. O logo chama uma lembrança? A apresentação faz o produto parecer adequado àquele lugar? A comunidade de referência ajuda a reconhecer valor? São caminhos que podem se cruzar, sem depender de uma comparação consciente de todas as alternativas.

Zajonc · Attitudinal effects of mere exposure (1968).

Uma mesma pessoa · duas perguntas

Conheço a marca. Mas vou pedir agora?

Antes de chegar ao bar

Consideração de marca

A marca já faz parte das minhas referências. Lembro da imagem, de uma experiência, de quem apresentou ou de um grupo que a valoriza.

“Essa é uma opção para mim?”

Na situação de consumo

Consideração de produto

Encontro o preço, a apresentação, a companhia, o serviço e o significado de estar com aquele produto naquele lugar.

“Faz sentido pedir aqui e agora?”

Depois do pedido ↶ A experiência pode reforçar, alterar ou desfazer as associações anteriores.
As duas perguntas se relacionam. Uma recomendação na hora pode apresentar uma marca desconhecida e já levar ao pedido.

Uso consideração de produto para olhar a oferta concreta na ocasião: a dose, o drink, a apresentação e o preço. Conversão de consumo é uma terceira pergunta: houve um pedido efetivo? Essa distinção ajuda a separar o reconhecimento da marca, a adequação da oferta e o que de fato aconteceu.

Da consideração de marca à consideração de produto

Bourdieu me ajuda a perguntar de onde vem o valor reconhecido naquele contexto. Goffman aproxima a apresentação de si e a leitura da situação. McCracken abre perguntas sobre o significado dos bens e dos rituais; Douglas e Isherwood, sobre o que os bens fazem nas relações. Cada leitura ajuda a observar uma dimensão da escolha.

Meu encadeamento de trabalho liga construção de significado, reconhecimento, familiaridade, consideração, pedido e experiência. A confiança pode participar dessas relações e a experiência pode reforçá-la ou desfazê-la. Organizo essas passagens para investigar o que aproxima a marca do consumo, não para supor que toda pessoa percorra uma fila de etapas.

Minha leitura · da marca à experiência

Entre conhecer a marca e fazer o pedido

  1. 01 · Contato

    Vejo a marca, ouço alguém falar ou encontro o produto.

  2. 02 · Reconhecimento

    O nome e a imagem encontram referências que já tenho.

  3. 03 · Consideração

    Avalio se faz sentido para esta ocasião: preço, companhia, apresentação e significado.

  4. 04 · Pedido

    A escolha encontra disponibilidade, atendimento e condições para acontecer.

  5. 05 · Experiência

    O gosto, o serviço e o encontro passam a participar da próxima escolha.

↶ A experiência volta ao repertório e pode mudar o reconhecimento e a consideração.

Este é um percurso para organizar minhas perguntas. Pode haver interrupções, retornos e passagens diretas; não é uma sequência obrigatória nem um modelo causal validado.

Reconhecer não é compreender

Também me interessa a sensação de saber que pode acompanhar o contato com uma linguagem. Saber identificar um nome, um estilo ou uma referência é diferente de conseguir explicar seu funcionamento, sua história ou seus limites.

A ilusão de profundidade explicativa, estudada por Rozenblit e Keil, ajuda a perguntar por que podemos sentir que entendemos um mecanismo melhor do que conseguimos explicá-lo. Ela aproxima o estudo da diferença entre reconhecer uma linguagem e compreender seu funcionamento. Ler o estudo (2002).

O trabalho de Kruger e Dunning entra por outra pergunta: como avaliamos a própria competência e quando essa avaliação se distancia do desempenho? Esse estudo não explica sozinho a atração por uma imagem ou a preferência por uma marca. Quero investigar onde a aproximação ajuda e onde ela deixa de fazer sentido. [estudo original]

Quem nos apresenta também participa do significado

Conhecer uma marca de tanto vê-la e conhecer uma marca pela indicação de alguém são encontros diferentes. A fala de um amigo, de um bartender ou de alguém que admiramos chega com uma história de relação. Essa proximidade participa da leitura do produto. Observo quando a recomendação encontra espaço para virar um pedido.

Uma comunidade também ajuda a aprender o que merece atenção. Participar permite perceber referências, diferenças e maneiras de usar que uma imagem isolada talvez não revele. Essa é uma das conexões que investigo entre familiaridade, pertencimento e reconhecimento.

A experiência volta para a marca

Depois do pedido, há o gosto, o serviço e o encontro. Aquilo que parecia adequado pode decepcionar; uma escolha sem grande expectativa pode ganhar outro lugar na memória. O que aconteceu passa a participar da próxima escolha e das histórias que contamos aos outros.

Por isso, acompanho a marca para além da primeira conversão. O consumo produz uma experiência que também reconstrói a percepção. Interessa saber o que levou à volta, o que afastou e o que mudou quando a companhia ou o ambiente eram outros.

O valor de uma imagem também é aprendido com os outros

Uma roupa, um logo ou um jeito de pedir pode ganhar valor em determinado grupo e passar despercebido em outro. Meus estudos de campo, capitais e circulação cultural ajudam a perguntar quem reconhece aquele sinal e por que ele conta ali.

Essa parte conversa com Bourdieu, Thornton e McCracken. As relações culturais não são substituídas por um mecanismo psicológico único. Quero acompanhar como repertório, familiaridade, situação e reconhecimento social se encontram nas escolhas.

Três leituras que se encontram no meu trabalho

Como uma cultura se transforma

A formação de práticas e códigos, sua circulação, validação e recodificação.

Circulação Cultural →

Como uma pessoa se posiciona

Participação, referências, reconhecimento e distinção em um campo e uma ocasião. Uma pessoa não ocupa a mesma posição em todos os lugares.

Leitura das escolhas →

Como uma marca atua

A escolha estratégica, a experiência proposta e o acompanhamento do consumo e da recorrência.

Consideração, conversão e giro →

Voltar às hipóteses depois da ação

Algumas conexões desta leitura são hipóteses minhas; outras partem de relações já estudadas. A aplicação precisa dizer qual problema pretende enfrentar, o que será acompanhado e que resultado faria mudar a primeira explicação. Uma ação entregue e uma mudança de consumo pedem verificações diferentes.

Acompanhar os estudos na OBSERV →

Fontes e caminhos de leitura

Reúno essas relações no percurso Do desejo ao consumo, com fontes comentadas e uma leitura da construção do valor. O mapa de ideias permite acompanhar conexões e retornos.