Bruno Passamonti

Futuros no Plural

Quem nomeou esse futuro, e o que ganha com ele sendo verdadeiro?

Lente de leituraEnsaio publicado · mar 2026

Uma prática começa a aparecer com mais frequência. Podemos projetar seu crescimento, escolher uma direção, investir para que ela aconteça ou acompanhar o que as pessoas estão criando. São maneiras diferentes de pensar o futuro.

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Quatro modos de imaginar o amanhã, que coexistem
Linear

Projeta a continuidade de um sinal presente. Pergunta o que acontece se a tendência de crescimento se mantiver.

Guiado

Escolhe uma direção e adapta o percurso conforme as condições e os resultados.

Implantado

Uma direção é anunciada e recebe investimento para modificar as condições do presente.

Emergente

Práticas se articulam sem um plano central que tenha desenhado seu conjunto.

Uma direção pode mudar de percurso

Um grupo escolhe manter encontros de corrida acessíveis. Ao acompanhar a participação, percebe que o horário dificulta a chegada de parte das pessoas. Muda o horário, preservando a direção que havia escolhido.

Essa situação hipotética ajuda a pensar o futuro guiado. Ela também ajuda a perceber por que falamos de coisas diferentes quando usamos a mesma palavra, futuro. Uma projeção, uma escolha de direção, uma narrativa financiada e uma prática emergente pedem perguntas distintas.

Crescer não é o único futuro possível

No futuro linear, estendemos um sinal presente: se hoje cresce, amanhã crescerá mais. É uma operação útil em certas condições, mas perigosa quando ignora saturação, restrições e outras práticas que continuam existindo.

No guiado, escolhemos uma direção e acompanhamos o que pode exigir mudança. A pergunta fica concreta: o que preciso observar para manter, interromper ou recalcular essa decisão?

Quem está ajudando esse futuro a acontecer?

O futuro implantado chama atenção para agentes que nomeiam uma direção e investem para viabilizá-la. Uma narrativa pode mobilizar recursos, produtos e comunicação até modificar as condições que descrevia. Isso exige investigar incentivos, sem concluir que toda construção deliberada é falsa.

Já o emergente pede que o olhar saia do lugar de quem costuma anunciar a novidade. Práticas podem existir num bairro ou numa comunidade muito antes de entrar numa apresentação de tendências. O que mudou foi a prática ou a nossa capacidade de enxergá-la?

OBSERV · para acompanhar a leitura

Um mesmo sinal. Quatro leituras de futuro.

Linear

Mais pessoas correm no bairro. A leitura projeta que a prática continuará crescendo.

Guiado

O grupo quer manter encontros acessíveis. Define uma direção e revê horário, percurso e apoio conforme o que acontece.

Implantado

Uma organização anuncia o bairro como polo de corrida e investe em eventos, comunicação e estrutura para realizar essa direção.

Emergente

Encontros pequenos se articulam por iniciativa dos participantes, antes de serem reconhecidos como tendência.

Situação hipotética para comparar as lentes. Planejamento e práticas emergentes podem coexistir no mesmo lugar.

Usar os quatro sem fazer previsão

Ao encontrar um sinal, anoto onde apareceu, quem o produziu, quem o amplifica e quais condições permitem sua continuidade. Procuro também o que aponta em outra direção. A mesma situação pode reunir planejamento de uma empresa e adaptação cotidiana de quem usa o produto.

Os quatro modos ajudam a esclarecer de que futuro estamos falando. Não são uma competição para escolher o mais autêntico. Qual sinal faria você recalcular a rota que está defendendo hoje?

Como acompanho uma hipótese de futuro

Uma leitura de mercado fica mais útil quando consigo dizer o que espero observar e quando vou voltar para conferir. Se acredito que uma nova ocasião de consumo está se formando, preciso definir em quais lugares, entre quais pessoas e ao longo de qual período essa mudança poderia aparecer.

Em Superforecasting, Philip Tetlock e Dan Gardner discutem práticas de previsão que incluem reunir evidências, trabalhar em grupo e rever julgamentos. Essa leitura me interessa pela disciplina de acompanhar o que foi previsto. A aplicação à minha pesquisa de cultura e consumo é uma construção minha. Conhecer o livro ↗︎

No meu trabalho, organizo quatro registros: a hipótese inicial, as condições para que faça sentido, os sinais que a enfraqueceriam e a data de revisão. Posso registrar também um grau de confiança, desde que consiga explicar em que ele se apoia. Um número escolhido sem critério só dá aparência de precisão.

Quero guardar também as leituras que não se confirmaram. Elas ajudam a perceber onde confundi visibilidade com participação, desejo declarado com pedido ou uma experiência isolada com mudança de hábito.

Quem anuncia e quem investe

Nos meus estudos sobre o SXSW, a pergunta se desloca para a relação entre anunciar um futuro e ajudar a construí-lo. Ao ouvir uma apresentação, procuro identificar quem fala, que interesse tem naquela direção e quais recursos podem mobilizar para viabilizá-la. Investimento, distribuição e comunicação podem modificar as condições que estão sendo descritas.

Isso pede duas observações. Uma acompanha a previsão: o que foi anunciado, com qual prazo e o que aconteceu depois. A outra acompanha a intervenção: que decisões foram tomadas a partir daquela narrativa e quem participou delas. Um encontro pode produzir relações e projetos relevantes mesmo quando uma previsão feita no palco não se confirma.

Leio essa discussão junto de onde as referências circulam. A presença de um tema numa conferência mostra que ele recebeu espaço ali. Para entender sua continuidade, preciso procurar também o que acontece fora daquele circuito.

Da possibilidade à escolha de investimento

Quero saber quem consegue transformar uma possibilidade em algo visível. Agenda, patrocínio, infraestrutura, curadoria e distribuição participam dessa seleção. O destaque que um futuro recebe também faz parte de sua construção.

Na decisão estratégica, procuro descrever a hipótese, quem teria condições de realizá-la, quais recursos exige e que prática já a sustenta. Depois comparo com outra possibilidade, inclusive a de fortalecer algo existente. Assim a novidade deixa de ser o único argumento de escolha.

O acorde cultural acrescenta uma pergunta: o que continua importante enquanto esse futuro ganha atenção? Essa coexistência ajuda a pensar públicos que vivem mudanças em tempos diferentes.

Fontes e leituras

  • Philip Tetlock e Dan Gardner · Superforecasting (2015). Leitura sobre previsão e revisão de julgamentos; os quatro modos de futuro são minha formulação.
  • Bruno Passamonti · O Futuro no Plural (31 de março de 2026), origem desta formulação.
  • Robert K. Merton · interlocução sobre expectativas e efeitos sociais.
  • Repertório de cultura, consumo e decisão.