Você não precisa perceber para ser influenciado
Memória durante o sono e recomendações no TikTok: duas perguntas sobre atenção e julgamento.
Neste ensaio
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Antes da Opinião · 01
Este é o primeiro texto de Antes da Opinião, uma série que nasce do meu TCC sobre autoridade percebida, mas parte de uma pergunta maior: o que acontece antes de a gente dizer “eu penso assim”?
Não quero tratar as pessoas como passivas, nem transformar algoritmos, estética ou influência em vilões. O que me interessa é a camada anterior ao julgamento consciente: os sinais que se repetem, os ambientes que organizam o que parece relevante e os atalhos que usamos quando não há tempo, disposição ou repertório para investigar tudo.
Em cada matéria, vou partir de uma situação comum e cruzá-la com comportamento, neurociência, filosofia, marketing e cultura digital. A ideia é observar o intervalo entre aquilo que aparece diante de nós e o momento em que decidimos confiar, rejeitar, desejar ou acreditar.
O nome da série vem daí. Antes da opinião existir como frase, alguma coisa já começou a organizar parte do que virá depois.
Você pode dormir sem se lembrar de ter ouvido um som e, ainda assim, acordar com uma memória ligeiramente mais forte.
Foi o que aconteceu em um . Primeiro, os participantes memorizaram a posição de diferentes objetos em uma tela. Cada imagem vinha acompanhada de um som correspondente: um gato aparecia com um miado, uma chaleira com um assobio.
Mais tarde, durante um cochilo, parte desses sons foi reproduzida em volume baixo, sem acordá-los. Ao despertar, os participantes não se lembravam de ter ouvido nada. Mesmo assim, localizaram com mais precisão os objetos ligados aos sons repetidos durante o sono.
O experimento não mostrou que podemos colocar uma aula para tocar durante a noite e acordar dominando um idioma. Nenhuma informação nova foi aprendida enquanto eles dormiam. Os sons funcionaram como pistas, reativando memórias que já haviam sido formadas.
A diferença parece pequena, mas muda a pergunta. Não perceber conscientemente um estímulo não significa que o cérebro não tenha feito nada com ele.
Processamento sem lembrança consciente
Quando pensamos em manipulação mental, ainda recorremos a uma imagem antiga: mensagens subliminares, comandos escondidos, alguém tentando implantar uma ideia dentro da cabeça de outra pessoa.
Essa imagem talvez nos distraia da forma mais comum de influência hoje.
A mensagem não precisa estar escondida. Pode aparecer abertamente, várias vezes, em vozes diferentes e cercada por conteúdos que apontam para uma direção parecida. Em vez de obrigar alguém a aceitar uma conclusão, organiza o ambiente em que essa conclusão será avaliada.
Cheguei a esse estudo enquanto pesquisava autoridade percebida para o meu TCC. A pergunta que me acompanhava era simples: por que algumas pessoas, ideias e narrativas parecem legítimas tão rápido, antes que tenhamos examinado a trajetória, as evidências ou a entrega?
No começo, procurei a resposta no conteúdo do argumento. Depois ficou claro que nenhum argumento chega sozinho. Antes de avaliá-lo, já encontramos sua posição no ambiente: quantas vezes apareceu para nós, quem o compartilhou, que aparência recebeu e ao lado de quais referências foi colocado.
O feed participa diretamente dessa montagem.
Estamos acordados, olhando para a tela e, muitas vezes, acreditando que apenas escolhemos o próximo vídeo, a próxima notícia ou a próxima foto. Mas cada escolha também participa da organização do que aparecerá em seguida.
Como o TikTok organizou um perfil de interesse
Uma investigação do Wall Street Journal, publicada em 2021, usou contas automatizadas para observar como as recomendações do TikTok respondiam ao tempo de visualização.
Os testes programavam padrões de visualização e acompanhavam os vídeos recomendados. O tempo passado diante de um conteúdo participava da seleção do que apareceria depois.
A . O teste ajuda a observar a resposta do sistema a um comportamento programado; não demonstra o que uma pessoa sente ou acredita.
Uma conta automatizada evidentemente não reproduz toda a complexidade de uma pessoa. Nós mudamos de assunto, buscamos coisas contraditórias, compartilhamos aparelhos e podemos parar em um vídeo tanto por interesse quanto por incômodo.
Ainda assim, o teste isolou uma parte importante do mecanismo.
Cada vídeo também funciona como uma pergunta feita por meio do comportamento. Quanto tempo você ficou? Em que momento saiu? Voltou? Assistiu até o fim? O que fez em seguida?
O aplicativo não precisa compreender sua personalidade por inteiro. Ele formula uma hipótese simples, apresenta outro conteúdo parecido e observa a reação. Quando o padrão se repete, a hipótese ganha força e o próximo teste pode se tornar mais específico.
O perfil vai sendo montado a partir de perguntas que nunca parecem perguntas.
Seleção, repetição e influência
Chamar esse processo de manipulação exige algum cuidado.
A palavra costuma sugerir que alguém definiu uma opinião final e está conduzindo cada usuário até ela. O objetivo mais imediato de uma plataforma de recomendação é, em geral, menos elaborado: prever o que retém atenção e prolonga o uso.
Prever atenção, porém, também reorganiza o ambiente.
Quem para em vídeos sobre exaustão pode começar a receber conteúdos sobre burnout, cortisol, produtividade, TDAH, relações abusivas ou mudanças radicais de vida. Esses assuntos não são iguais, mas podem ser aproximados pelos mesmos padrões de consumo.
Depois de algum tempo, parece que o mundo inteiro está falando daquilo.
Outra pessoa abre o mesmo aplicativo e encontra disciplina, enriquecimento, rotina matinal e empreendedorismo. Uma terceira circula por alimentação, religião, conflitos políticos ou teorias sobre relacionamento. Todas estão dentro da mesma plataforma, mas recebem proporções diferentes do mundo.
É nesse sentido que uso a expressão .
A plataforma não determina sozinha aquilo em que acreditamos. Nossa história, relações, repertório e experiências continuam participando da formação do julgamento. Mas o sistema organiza uma parte cada vez maior do material com que formaremos nossas crenças. Decide o que retorna, o que aparece lado a lado e o que dificilmente chega até nós.
A influência não está apenas no conteúdo de uma mensagem. Também está na distribuição do que terá oportunidade de ser visto, reconhecido e levado a sério.
Isso ajuda a entender por que certos temas parecem ocupar toda a conversa pública, mesmo quando essa proporção existe principalmente dentro de um ambiente personalizado. O feed não precisa inventar uma realidade. Basta selecionar partes dela, repetir algumas e reduzir a presença de outras.
Quando essa seleção passa a fazer parte da rotina, ela deixa de parecer seleção. Começa a ser sentida como o mundo disponível. E aquilo que aparece o tempo todo pode começar a parecer mais comum, mais importante e até mais verdadeiro do que realmente é.
O ritmo de consumo da informação
A comparação com fast-food costuma ser usada como uma crítica genérica ao conteúdo curto. Não é isso que me interessa. Um vídeo de um minuto pode organizar uma ideia com mais clareza do que um texto de dez páginas.
O problema está menos no tamanho da porção do que no ritmo em que ela é consumida.
No feed, a informação seguinte chega antes que a anterior tenha assentado. Em poucos minutos, podemos passar por dopamina, política, trauma, inteligência artificial, alimentação, carreira e relacionamentos. Saímos com palavras novas, autores para procurar e a impressão de termos aprendido alguma coisa, mas quase sem tempo para entender as relações entre esses assuntos.
A lógica do fast-food combina acesso fácil, recompensa rápida, pouca fricção e reposição contínua. A próxima porção já está pronta antes mesmo de decidirmos se ainda queremos continuar.
Minha hipótese é que esse ritmo pode mudar o que estamos dispostos a acompanhar. Um argumento que precisa reconstruir contexto começa a parecer demorado. Uma resposta que admite dúvida compete com outra que entrega certeza em vinte segundos. Uma explicação complexa pode ser confundida com falta de clareza simplesmente porque exige um tipo de atenção que o ambiente não costuma recompensar.
Isso não permite concluir que as pessoas ficaram menos inteligentes ou que seu funcionamento mental foi alterado. Minha pergunta é quais oportunidades de pausa, comparação e investigação esse ritmo oferece.
Reconhecemos muitos termos, reagimos rapidamente e seguimos para o próximo estímulo. Há abundância de informação, mas pouco espaço para comparar fontes, relacionar ideias, desconfiar de uma conclusão ou perceber uma contradição.
É possível terminar o dia com uma dieta farta em dados e pobre em nutrição crítica.
Esse excesso também produz uma sensação curiosa de familiaridade. Depois de assistir a dezenas de conteúdos sobre um tema, começamos a reconhecer o vocabulário, os personagens, os conflitos e as respostas mais comuns. Mas reconhecer uma linguagem não significa necessariamente saber pensar com ela.
O que o feed aprende, e o que ensina
Costumamos resumir o funcionamento do TikTok dizendo que o algoritmo aprende quem somos. Talvez ele não precise chegar tão longe.
O sistema aprende o que prende nossa atenção naquele contexto e reorganiza o que veremos depois. Quando essa experiência se repete todos os dias, também começamos a nos adaptar às frequências, ausências e associações que recebemos.
O feed aprende com nosso comportamento, mas nosso comportamento passa a acontecer dentro do ambiente que ele acabou de reorganizar.
É uma relação de mão dupla.
Ninguém precisa nos dar uma ordem direta. A influência pode acontecer pela exposição, pela recorrência e pela impressão de que uma ideia aparece em toda parte. Aquilo que retorna muitas vezes passa a ser reconhecido com mais facilidade. O que nunca aparece dificilmente entra na disputa pela atenção.
A aproximação entre sono e feed é uma pergunta deste ensaio, não uma equivalência demonstrada. O estudo do sono tratou da consolidação de memórias já aprendidas; não testou persuasão, redes sociais ou formação de opinião.
No feed, estamos acordados, mas atravessamos centenas de informações com níveis muito diferentes de atenção. Nem sempre percebemos como a ordem, a frequência e a associação entre os conteúdos participam daquilo que começará a parecer comum, importante ou confiável.
É também aqui que a discussão volta à autoridade. Uma pessoa que aparece muitas vezes, domina os códigos visuais de um campo, usa sua linguagem e circula entre perfis reconhecidos pode começar a parecer relevante antes que sua entrega seja examinada.
Esses sinais não provam que não exista competência. Muitas vezes, apenas tornam visível uma competência real. O problema aparece quando a superfície encerra uma avaliação que deveria apenas iniciar.
A repetição não cria necessariamente autoridade, mas pode antecipar sua percepção.
A pergunta, então, não é apenas quanto tempo o feed leva para nos conhecer. É quanto tempo levamos para perceber que, enquanto aprende conosco, ele também reorganiza o ambiente no qual aprenderemos sobre o mundo.
Referências
- Rudoy, J. D.; Voss, J. L.; Westerberg, C. E.; Paller, K. A. Strengthening individual memories by reactivating them during sleep. Science, v. 326, n. 5956, p. 1079, 2009. doi.org/10.1126/science.1179013 ↗︎
- The Wall Street Journal. Investigation: How TikTok’s Algorithm Figures Out Your Deepest Desires. Vídeo, julho de 2021. wsj.com ↗︎
- TikTok. How TikTok recommends videos #ForYou. Newsroom, junho de 2020. newsroom.tiktok.com ↗︎
Próximo da série: Quando não entender parece suficiente para discordar.
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